*Por Rodrigo Lucchesi, maratonista

Na semana passada os noticiários do mundo da corrida mostraram uma cena inusitada na chegada da Maratona de Austin, no Texas, Estados Unidos. A queniana Hyvon Ngetich, de 29 anos, liderava a prova quando, a 50 metros da linha de chegada, seu corpo entrou em colapso e ela caiu no chão.

Sim, ela atingiu o famoso “paredão” que assusta tanta gente numa maratona. Os atletas de elite também passam por isso. Agachada, sem conseguir se levantar, recusou ajuda dos voluntários que correram para socorrê-la e decidiu engatinhar até a linha de chegada para poder terminar a prova sozinha (se ela aceitasse ajuda, seria desqualificada).

Neste trajeto acabou sendo ultrapassada por duas concorrentes e ainda chegou em 3º lugar.

Uma das inúmeras reportagens sobre a cena inusitada você pode ver aqui.

Em um dado momento, enquanto a queniana engatinha, o locutor da prova grita: “Vocês estão testemunhando uma performance humana nunca vista”. De fato, vários sites e jornalistas enalteceram a raça e a determinação da corredora. Mas será que terminar uma prova a qualquer custo é o mais importante?

Por um lado, entendo a motivação da corredora que, por ser atleta profissional, depende de prêmios e patrocínios para se sustentar. Mas, ao mesmo tempo, ver essa cena em um esporte como a corrida, que é tão propagada como importante para o bem-estar e a saúde, me preocupa a mensagem que corredores amadores podem receber.

Em entrevista no dia seguinte após a prova, já recuperada, a corredora diz que não se lembra dos últimos 2 km da corrida, muito menos da linha de chegada.

Então, além de debilitada fisicamente, sem controle dos seus músculos, a atleta estava praticamente inconsciente. Sendo uma atleta de elite, se ela chegou àquele ponto, provavelmente deve ter negligenciado em algum momento da prova a hidratação/alimentação pertinente a uma atleta do seu nível. E pagou o preço por isso.

Se esse ato pode se justificar no caso de um atleta de elite, que depende do dinheiro da prova para sobreviver (ela ganhou US$ 2 mil pelo 3º lugar), não se pode em hipótese nenhuma levar esse raciocínio para o mundo dos corredores amadores.

A prática de esportes é para ser saudável. É muito perigoso esse conceito de que o que importa é cruzar a linha de chegada a qualquer custo, quando isso implica abrir mão da saúde, colocar a vida em risco e inverter as prioridades da prática do esporte.

*Rodrigo Lucchesi é corredor viciado, já completou 4 Maratonas, 10 Meias e outras provas menores, mas garante que está só começando. Escreve para a revista “Contra-Relógio” e  para o blog Linhas de Chegada. Acompanhe Rodrigo no Instagram em @rodrigo21fev79