Aprender a andar de bicicleta, se tornar fera em uma brincadeira com bambolê e construir laços de confiança e amizade. Assim como para todo mundo, o exercício físico é fundamental para crianças e adolescentes autistas. Além da promoção de bem-estar e saúde, no transtorno de espectro autista, o benefício primordial do movimento é o desenvolvimento de habilidades sociais, que podem mudar a vida do aluno e de seus familiares. 

“Uma das características mais presentes em quase todos que apresentam o diagnóstico é uma dificuldade de socialização, o que se deve, entre alguns fatores, a defasagens motoras. Isso vai fazer com que essa pessoa tenha uma dificuldade muito grande em ficar em um equilíbrio unipodal para chutar uma bola, para pular, tornando a socialização um desafio”, explica Rodrigo Brivio, professor de educação física e especialista em autismo. 

Porém, quando o aluno autista consegue desenvolver sua base motora com o apoio de um profissional, ele se torna capaz de aprender a andar de bicicleta, participar de atividades coletivas e fazer tarefas do dia a dia com mais autonomia e autoestima, por exemplo, o que abre um mundo de possibilidades para ele e para seus familiares, explica Brivio. 

E quanto mais cedo o movimento fizer parte da vida, melhor. O profissional traz a comparação entre uma esponja e o cérebro humano. O cérebro está pronto para receber estímulos que o ajudem a crescer e se desenvolver, assim como uma esponja absorve água quando é molhada. Ao receber estímulos, como os proporcionados por profissionais de educação física, o cérebro absorve essas informações e se desenvolve de maneira mais eficiente”, explica.

Profissionais e espaços preparados 

Há 18 anos desenvolvendo um trabalho focado em crianças e adolescentes com autismo na Bodytech Città, no Rio de Janeiro, que atende atualmente 400 alunos, Brivio afirma que a dedicação de um profissional atento e consciente das características do espectro autista faz toda a diferença para que o trabalho seja bem-sucedido.  

“Ele precisa sim entender que pessoas com autismo podem apresentar questões sensoriais. Por exemplo, dentro de uma aula de educação física, é muito comum ter o apito, mas esse som muito aguçado pode atrapalhar. Às vezes, a luminosidade intensa ou o cheiro do perfume do professor tornam-se disparadores de desconfortos. Em geral, profissionais e instituições devem entender características que desorganizam uma pessoa com TEA e devem saber lidar com elas da melhor forma”̃, explica Brivio. 

Uma das ferramentas usadas na Bodytech são os quadros de comunicação aumentativa e alternativa, que através de figuras e símbolos, garantem a comunicação quando a pessoa simplesmente quer ir ao banheiro ou existe algo errado e ela não está conseguindo verbalizar isso. De acordo com o professor, quando os profissionais têm experiência e conhecimento e há ferramentas de suporte, a probabilidade do aluno autista ter um desempenho fantástico nas aulas é altíssima. 

Projeto Autismo em Movimento e Bodytech Eldorado 

Há doze anos, a Bodytech Eldorado, em São Paulo, é palco do Projeto Autismo em Movimento, que desenvolve atividades esportivas com crianças e adolescentes autistas. Fabio Zamborlini, idealizador e líder do projeto, conta que ao longo desse tempo não faltam retornos positivos de pais falando o quanto os filhos se transformaram com as aulas de futsal. “As famílias dizem para gente como as crianças estão mais calmas, mais tranquilas, sobre como elas gostam da rotina do futsal. Isso faz tudo valer a pena,” conta Zamborlini.  

Projetos como os desenvolvidos pelas equipes do Rodrigo Brivio e do Fábio Zamborlini são a comprovação de que a saída para melhorar a vida de pessoas autistas está ligada à geração de oportunidades que respeitem suas individualidades, sem generalizações e preconceitos. Há um longo caminho pela frente de debates, ações, políticas e mudanças, mas muitas pessoas já estão nesta trilha.