*Por Rafael Duarte, equipe Miramundos

Uma das características mais marcantes da Expedição Miramundos Ilha da Trindade foi que nós teríamos apenas 48h em terra firme. Isso pautou toda nossa atitude energética em campo para conseguirmos produzir o máximo possível. Ou seja, dos 10 dias totais da missão, o esforço se concentraria naqueles dois dias.

A primeira tarde e noite foram mágicas, mas o melhor ainda estaria por vir. Na manhã do segundo dia acordaríamos bem cedo, por volta das 4h30, para começar o principal desafio da expedição: subir o Pico Desejado, ponto mais alto da Trindade que está a 620m do nível do mar.

Além de possibilitar uma visão de 360° de toda a ilha, saíamos que logo ao lado dele, já para a face oposta do cume da grande montanha vulcânica, havia a emblemática Fazendinha, que é o nome dado à floresta de samambaias gigantes (Cyathea copelandii). Aquelas que foram as únicas árvores remanescentes na ilha após a devastação das cabras que comeram todo o verde dali.

Elas teriam sido introduzidas pelo astrônomo Edmund Halley para ser a fonte de proteína para sua equipe e outros navegantes que por ali passassem. Imaginamos que ele não teria noção na época do estrago deste impacto. Foi assim que sobreviveu esta espécie de planta endêmica (ou seja, só existe lá), que tem um caule que chega a 7m, que afastaram as folhas verdes dos caprinos – que já foram retirados nos anos 1970.

Começamos a subida às 5h30 num dia que amanheceu lindo, trazendo um enorme alívio aos miramundos. Havíamos sido prevenidos pela Marinha do Brasil que caso chovesse muito na véspera da nossa subida, não poderíamos fazer a ascensão do Desejado por motivos de segurança. É que com a erosão e o terreno molhado, há riscos de pequemos deslizamentos. Por isso, inclusive, nos trechos mais críticos, foram instaladas cordas para ajudar nesta questão. Tecnicamente não tivemos nenhuma dificuldade. Mas respeitamos muito a montanha, especialmente por sabermos que estávamos a 4 dias do hospital mais próximo.

E os marinheiros também lembraram que deveríamos levar abrigo para nós e os equipamentos. O motivo seria o tal do “pirajá”. Trata-se de uma chuvinha pequena e localizada, que ocorre quase o ano inteiro em alto mar, em especial durante o verão. São tão frequentes e pontuais, que do alto foi possível ver dezenas de pequenos focos de chuva no oceano. Em determinado momento, enquanto subíamos, olhamos para trás e contamos apenas naqueles 180o 25 “pirajás”. E claro, eles nos alcançaram algumas vezes. Fazendo o tempo abrir e fechar em questão de minutos. Elas passam rápido, durante apenas cerca de 5 minutos. Mas é o suficiente para encharcar qualquer desprevenido.

Essas chuvas são de extrema importância tanto para a fauna como para a flora terrestres da ilha, bem como para a guarnição da Marinha do Brasil e os pesquisadores que ali residem periodicamente, pois abastecem o lençol freático e, consequentemente, diversas fontes de água potável que brotam por toda a ilha. A principal fonte, situada na Enseada dos Portugueses, possui uma vazão estimada de 230 mil litros por dia – fato impressionante para uma ilha oceânica de tais proporções”, explica relatório da Marinha.

Nossa subida ao Desejado foi guiada pelos oficiais Rodrigues e Nai, juntamente com uma equipe de pesquisadoras que subiram ao cume para desvendar os segredos da flora do Desejado e tentar entender as ocorrências de flora no cume, que apesar de isolado e diferente do resto da ilha, também abriga centenas de caranguejos amarelos, para nossa surpresa. Curiosos, eles se aproximam de nós e dos nossos equipamentos quando não veem sinal de movimento e começam a pinçar tudo que acham interessante.

Já do meio do caminho, virávamos para trás a todo tempo para curtir a vista do Pão de Açúcar que se afastava ao fundo, em meio a uma paleta de cores dos distintos terrenos que se diferenciam a cada quilômetro. Do amarelo ao verde, do vermelho ao marrom. Uma beleza árida sem igual. “Acho que este é o lugar mais bonito que eu já vi na minha vida”, comentou o Jaime. Enquanto ele, Ítalo – nosso cinegrafista – e eu escalávamos o Pico do Desejado, já nos metros finais, vimos lá de cima o helicóptero levantar voo com o fotógrafo da Miramundos Flavio Forner. É que a Marinha convidou a equipe para uma missão bate-e-volta ao arquipélago de Martin Vaz, que fica a 40km de Trindade e é o ponto mais extremo ao leste do Brasil. E lá foi ele documentar este lugar tão isolado, onde poucos, até os dias de hoje, tiveram a chance de pisar.

São várias as trilhas na Ilha da Trindade que cortam seus paredões, colinas e escarpas. Cada uma leva a picos deslumbrantes e praias paradisíacas. Nossa vontade era explorar a ilha durante um mês inteiro. Mas como estávamos correndo contra o tempo, aquele seria nosso ponto alto e despedida. Tudo ao mesmo tempo. Ainda pela manhã alcançamos o Pico Desejado, naquele que foi certeza um dos momentos mais especiais de nossas vidas. Não só pela dificuldade e complexidade de se chegar até ali, mas por saber que éramos privilegiados por ter esta chance de estar no topo de uma montanha que se ergue no meio do Oceano Atlântico no extremo do território Brasileiro.

Passada a euforia do cume e registros feitos, seguimos um pouco mais rumo à floresta de samambaias gigantes. A sensação foi estar num ambiente pré-histórico, onde uma espécie de planta é capaz de formar toda a floresta em uma das encostas da ilha. Cenicamente, um lugar lindo que nos deixa e nos faz sentir como insetos num jardim.

Na próxima e última reportagem da série, vamos revelar o que foi mais especial para os integrantes da nossa equipe.

A “Expedição Miramundos – Ilha da Trindade 2017” foi realizada a convite da Marinha do Brasil para a filmagem do documentário que tem patrocínio da AllStar Brasil Seguros, SPOT Brasil e Sobrebarba e apoio da GoPro, Mormaii e BT Bodytech.

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