Quando escutamos a palavra “windsurf”, nosso imaginário é imediatamente preenchido por visualizações bucólicas de velinhas coloridas navegando sobre um mar caribenho, cercadas por gaivotas, velejadores com a pela bronzeada e esvoaçantes cabelos dourados, queimados do sol, com certo ar de “surfistão”. Parte disso é verdade. Existe uma cultura de praia que marca o esporte –areia, sal, maresia, conchas e algas são personagens do nosso dia a dia.

Porém, engana-se quem acha que os velejadores da classe olímpica do windsurf, a RS:X, vivem à espera da maré.

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Sou atleta profissional desde os 18 anos, competi nos Jogos Olímpicos da China, em 2008, e de Londres, em 2012, ganhei a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, em 2011. Vou defender o ouro neste ano nos Jogos Pan-Americanos de Toronto e já estou selecionada para os Jogos do Rio, em 2016.

Apesar do glamour que paira acerca do “windsurf” e das demais categorias da vela, nossa rotina de treinos é intensa: trabalhamos de segunda a sexta, executando pelo menos duas sessões físicas por dia. Velejar de “windsurf” consiste basicamente em encontrar o equilíbrio entre a prancha, vela e as forças do vento e mar, usando o próprio corpo como contrapeso. Para tanto, uma lista de capacidades físicas e mentais são postas à prova. Resistência, explosão, força, agilidade e equilíbrio são as qualidades físicas; foco, paciência, garra, dependência química em adrenalina, pensamento estratégico, malícia, oportunismo e concentração são as qualidades mentais. Para se obter o melhor desempenho no esporte, uma estratégia padrão de preparação física não dá conta do recado: além dos treinos na academia, também lançamos mão do remo ergométrico e da mountain bike. O primeiro é utilizado pela semelhança entre os movimentos executados no remo e na vela, já o segundo é indicado pois trabalha as capacidades mentais citadas acima, além de ser muito divertido!

Desta maneira, com o intuito de melhorar o desempenho no “windsurf”, eis que surgiu uma nova paixão. Comprei minha primeira bicicleta em 2012, uma Willier Triestina com o quadro de alumínio e garfos de carbono. Os treinos de madrugada na orla da zona sul carioca eram divertidos, a princípio, porém a diversão foi logo sombreada pela realização de que aquilo era realmente perigoso.

Passei a usar a bicicleta apenas para subidas na Floresta da Tijuca, mas, na verdade, o que me motivava mesmo eram as descidas. Por isso, o próximo passo para a mountain bike foi muito natural.

Comprei minha Specialized Expert, também em alumínio, em 2013, e fiquei completamente viciada. Em função de alguns ajustes na equipe brasileira de “windsurf”, meus treinos migraram do Rio de Janeiro para Búzios, o que motivou também minha transição completa para a mountain bike, pela falta de estrutura para rodar nas estradas.

Búzios recebe diversas corridas de aventura, como o X-Terra, e por isso tem algumas trilhas, especialmente na fronteira com Cabo Frio, que recebem manutenção e são regularmente usadas pelos ciclistas locais.

As trilhas são geralmente planas, com algumas subidas íngremes e longas, que sempre premiam com uma bela vista panorâmica da península e suas diversas praias.

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A sensação de entrar num single-track coberto por árvores e plantas rasteiras, ver a transição entre texturas no solo –areia, grama, areia fofa, seixo, cactos, raízes, cuidado com o tronco– ajustar uma curva com o corpo, evitar que a roda caia na vala, não deixar o amigo de trás passar você, tampouco o da frente distanciar-se, sprintar sempre que o solo permitir, sair do banco nas subidas (com o cuidado para não perder a tração atrás) é mágico, é um rush de adrenalina incontrolável ao ponto de se pedalar duas horas com um sorriso de orelha a orelha, deixando escapar um “u-uhul!” a qualquer momento.

Com certeza é a atividade de que mais gosto de fazer depois de velejar. E, veja só, é tudo parte do meu trabalho!

Patrícia Freitas é atleta da Vela (RS:X). Ouro nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara 2011, 13º lugar nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e 14º lugar no Campeonato Mundial 2014. Ela será a representante do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Toronto 2015 (em julho) e é a titular do RS:X para os Jogos Olímpicos 2016.