Os livros de colorir para adultos conquistaram espaço nas prateleiras e viraram uma opção de lazer para quem busca momentos de pausa na rotina. A atividade, antes associada ao universo infantil, passou a ser vista como uma forma de desconectar-se das demandas do dia a dia e ter tempo de qualidade fora das telas.
Muitos adeptos relatam que a prática ajuda a desacelerar a mente, aliviar a tensão e trazer uma sensação de bem-estar. Mas será que esse hábito realmente pode contribuir para a diminuição do estresse?
O que acontece no cérebro enquanto colorimos?
De acordo com a psicóloga e conselheira em Gestão de Pessoas, Edwiges Parra, ao direcionar a atenção para uma atividade simples, repetitiva e prazerosa como o ato de colorir, a mente se desconecta de preocupações externas. Isso promove um estado de foco atencional benéfico à saúde mental e semelhante ao estado proporcionado pela meditação.
“A prática tende reduzir a atividade do córtex pré-frontal ligado à ruminação e ativar áreas relacionadas ao prazer e à recompensa. O que pode gerar para uns a sensação de relaxamento e alívio do estresse. Já para outros ser uma forma de entretenimento onde se para de pensar em problemas”, explica a especialista.
Além disso, atividades repetitivas ativam o sistema nervoso parassimpático, responsável por estados de calma e recuperação. A psicóloga explica que é como se o cérebro entrasse em um estado de “flow”, onde o tempo passa mais rápido e a mente se encontra em equilíbrio. Outro ponto importante é que, durante o ato de colorir, pode ocorrer a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação, gerando sensação de satisfação.
Benefícios dos livros de colorir
Para além da redução do estresse, aderir à prática dos livros de colorir pode favorecer o autocontrole emocional, aumentar a paciência, estimular a criatividade e oferecer uma experiência de autoconsciência. “Algumas pessoas que sofrem de ansiedade, por exemplo, podem encontrar alívio na prática, pois ela ajuda a regular o ritmo interno, diminuindo a agitação mental”, pontua Edwiges.
Colorir também traz benefícios cognitivos visíveis, sendo o principal a melhora da atenção sustentada e do foco. A psicóloga explica que ao se concentrar nas cores, formas e limites dos desenhos, o cérebro treina a habilidade de permanecer em uma única tarefa, reduzindo a dispersão mental. Entretanto, a profissional ressalta que não há evidências robustas de impacto direto na memória, mas a melhora do foco pode, indiretamente, beneficiar a aprendizagem.
Quanto à sensação de relaxamento que pode auxiliar em um sono de qualidade e no bem-estar diário, o impacto varia com base nos hábitos e personalidade de cada indivíduo. Todavia, colorir ajuda a preparar o corpo e a mente para o descanso, funcionando como um ritual de transição para o sono. Uma vez praticado e com regularidade, o ato de colorir pode vir a reduzir a ativação fisiológica ligada ao estresse, reduzindo a sobrecarga mental e favorecendo momentos de prazer simples.
Indicações sobre a prática
Apesar de não existir um consenso rígido quanto ao tempo mínimo necessário para que a atividade traga benefícios para quem colore, estudos e relatos apontam que 20 a 30 minutos diários já são suficientes para experimentar os efeitos de relaxamento. Entretanto, a especialista indica: “mais importante que o tempo é a regularidade, praticar de forma consistente gera melhores resultados”.
É possível que as pessoas adotem o ato de colorir como hobbie de forma despretensiosa, sem precisar de competências ou habilidades manuais. Sendo até mesmo um bom treino para tornar pessoas hábeis em tais competências.
Quanto aos principais benefícios perceptíveis para cada grupo de idade, a psicóloga cita:
- Crianças: podem desenvolver coordenação motora e atencional;
- Idosos: bom estímulo para as funções cognitivas e memória visual;
- Pessoas em tratamento psicológico ou psiquiátrico: recurso adicional de autocuidado, que favorece a persistência na caminhada terapêutica;
Livros de colorir e outras práticas de relaxamento
O ato de colorir pode ser considerado como uma das práticas de “meditação ativa”, pois envolve concentração em um objeto externo. Enquanto a meditação tradicional foca no vazio ou na respiração, colorir dá um ponto concreto de atenção. Para pessoas que têm dificuldade em ficar em silêncio ou paradas, essa pode ser uma boa alternativa para práticas contemplativas.
Edwiges explica que apesar de possíveis efeitos terapêuticos a prática, por si só, não pode ser considerada arteterapia. “É preciso entender que a arteterapia é uma prática clínica conduzida por um profissional, com objetivos terapêuticos definidos e intervenção psicológica estruturada. Já colorir é uma atividade que pode ser de entretenimento ou de autocuidado acessível, que pode complementar tratamentos formais, mas não substituí-los”, esclarece a psicóloga.
Desta forma, é importante lembrar que a prática de livros de colorir pode ser usada como complemento para compor um protocolo terapêutico realizado a depender do caso, pelo trabalho em conjunto do psicólogo e psiquiatra. Mas em situação alguma pode substituir terapias tradicionais.
