“Piadas de gordo, pessoas me abordando com uma receita para emagrecer, mesmo sem me conhecer, outras repetindo insistentemente ‘você tem um rosto lindo’, com entonação de piedade, ter de me esforçar muito para me fazer ouvir, associação de obesidade à falta de caráter (ou de força de vontade), condenação por usar maiô ou biquíni em público, reações negativas em entrevistas de emprego.”

Esses são somente alguns dos preconceitos que Velma Gregório, jornalista e sócia-fundadora da ÓGUI Comunicação da Sustentabilidade, sofreu.

“Posso escrever um livro de 100 páginas só com as situações [preconceituosas]. Mas a que mais machuca é aquela que vem das pessoas mais próximas de você, que te conhecem e ainda assim preferem que seja magra. Usam o discurso de estarem preocupados com a saúde, mas a real é que se incomodam com a gordura”, completa. Mesmo tentando emagrecer havia tempos –aos 12 anos fez a primeira dieta–, as tentativas não funcionavam, mesmo 30 anos depois. Foi quando apostou na cirurgia bariátrica:

“Quando fui me preparar para a cirurgia aprendi que ela também não é a solução definitiva para a obesidade. Que optar pela cirurgia faria sentido apenas se eu mudasse hábitos cotidianos, como alimentação e prática de atividades físicas. Emagreci 45kg com a cirurgia. E outros 15kg com mudança alimentar e praticando atividades físicas.

Velma começou a escolher melhor os alimentos, consumindo os mais frescos e integrais e deixando os industrializados, gordurosos e calóricos de lado. Um ponto importante, no entanto, foi não ficar neurótica com isso.

movimento desroliçar

Além da nova dieta, ela começou a se exercitar. Inicialmente, caminhava em volta de um quarteirão por 15 minutos. Aos poucos, foi aumentando o tempo e experimentando coisas novas. A hidroginástica foi a porta de entrada para a academia. Então, descobriu a zumba:

“Cara, adorei! Uma hora inteirinha de dança e ainda perdendo calorias. Não é que esse negócio começou a ficar divertido?”, comenta.

Um ano depois, começou a observar que as pessoas que corriam ficavam felizes. Resolveu arriscar. E gostou! Em 2013, se inscreveu para a primeira prova, de 5km. “Pensei comigo ‘se eu conseguir chegar ao final e não for a última corredora, estarei feliz’. Além de completar a prova, deixou cerca de mil pessoas para trás: “Delirei. Saí da praça da República chorando de felicidade”.

Não foi só a autoestima que aumentou –os negócios também melhoraram. “(Agora) as pessoas prestam mais atenção ao que eu falo do que ao meu excesso de peso. Confiam mais em magros (não fiquei magra totalmente). Sei lá o que se passa na cabeça das pessoas, mas certamente que gordos são incompetentes, relaxados, desleixados.”

Em 2013, Velma criou o Movimento Desroliçar. A página no Facebook, cujo nome foi dado a partir de uma brincadeira com os amigos e o marido, pretende incentivar as pessoas a emagrecer, mostrando que não há milagres e que é possível mudar sem radicalismos.

E com diversão, é claro: “Quando fui entendendo que, para desroliçar, era preciso deixar de ser roliço na cabeça também, pensei que poderia contar essa história para mais gente. Desroliçar é ser saudável, comer bem, fazer exercícios e ser feliz sem ditaduras. E dá para fazer sem dor. Eu gosto de dançar, mas tem gente que pode gostar de esgrima, de boxe, de crossfit. Só não dá para ter preconceitos e não tentar”.