Será que tomei as decisões certas? O que preciso fazer para o meu ano ser melhor? Vou conseguir realizar os meus desejos até dezembro? Em meio a tantas questões que vêm à tona quando tentamos planejar um ano que acabou de começar, Gabriela Malzyner, psicóloga formada pela PUC/SP, destaca como é difícil prever os impactos e os desafios da vida. Para ela, lidar melhor com essa imprevisibilidade pode ser um caminho interessante de olhar o futuro. 

De forma provocativa, a psicóloga nos lembra da importância de entender a dimensão desses desafios, levando em conta diversos fatores que mudam a dinâmica de como cada um se vê e vive a vida. 

Bilhões de pessoas, bilhões de contextos 

Primeiramente, Malzyner lembra que existem inúmeras situações sendo enfrentadas, pessoas que vivem em territórios de conflito, violência e desigualdade socioeconômica, por exemplo. Ela destaca como o ambiente, a idade e a subjetividade de cada um influenciam a maneira como encaramos os desafios do dia a dia, tornando impossível generalizar quando falamos de emoções e planejamento de vida. “A faixa-etária, o gênero, o contexto em diversas dimensões vão impactar a forma em que reagimos aos problemas. É preciso entender que crianças, adolescentes, adultos e idosos terão expectativas e distintas dificuldades em seu cotidiano”, explica. Compreender essa diversidade de experiências humanas seria um primeiro passo dessa discussão. 

Reconhecer vulnerabilidades 

Planners, rotina e roteiros: tudo isso é bem-vindo se mantivermos a natureza imprevisível e inerente à condição humana no nosso radar. A especialista destaca a importância de lidar com a vulnerabilidade, reconhecendo que o desconhecido faz parte da jornada de cada um de nós, e imprevistos, mudanças de rota, chateações e tristezas nos encontrarão de vez em quando. 

Como você lida com as redes? 

E na contramão da ideia de que existem dias bons e ruins, as redes sociais tendem a privilegiar os fragmentos positivos da “vida”. Os amigos, os influenciadores e os vizinhos parecem mais bonitos, felizes e realizados que nós. Será? 

Além disso, o fluxo de informação é tão intenso que ao demonstrar interesse em um determinado tema, os algoritmos nos entregam uma superexposição ao assunto, seja esse assunto gatinhos fofos ou compulsão alimentar. “Se eu tenho angústia frente a um comer transtornado, por exemplo, e consumo alguns vídeos sobre alimentação, o que o algoritmo vai me ofertar? Cada vez mais conteúdos de comida e de dietas, o que é muito nocivo. Estamos sempre sendo convocados nas redes, limitando muito o tempo para respirar e pensar sobre os processos da vida”, reflete a psicóloga. Criar limites e não naturalizar tudo que é visto e vivido online é importante para preservar a saúde mental. 

Perspectivas para 2024

Como diz a clássica, popular e sábia música de Lulu Santos “nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia”. Pessoas, situações e desejos mudam o tempo todo. Malzyner sugere que, ao invés de apenas focar em metas positivas para o futuro, encaremos 2024 com um diálogo aberto também sobre as nossas dificuldades, sem se camuflar. Ela destaca a importância de uma abordagem realista, reconhecendo a mudança de metas ao longo do ano, já que nós mesmos passamos por transformações e chegaremos em dezembro pessoas diferentes – e que bom! O convite é para abraçar a diversidade das experiências e entender que realizar desejos é um processo.