Cigarro eletrônico: pior ou igual ao tradicional?

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Cigarro eletrônico: pior ou igual ao tradicional?

Hábito, moda, válvula de escape ou vício, a prática de fumar algum tipo de cigarro está presente na sociedade há séculos. No Brasil, mais de 20 milhões de pessoas fazem uso do tabaco regularmente e 130 mil morrem anualmente por doenças relacionadas a ele. Mesmo com números tão alarmantes, a indústria continua fabricando produtos para aguçar a curiosidade de antigos fumantes e conquistar novos adeptos. É a aposta da vez são os cigarros eletrônicos. 

Com venda e propaganda proibidas no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os cigarros eletrônicos, e-cigarettes ou vape, como também são conhecidos, se disseminaram nos Estados Unidos. Só no início de outubro deste ano, o Centro de Controle de Doenças Estadunidense (CDC) registrou 33 mortes causadas pelo uso desse dispositivo em 24 estados. Ainda nessa estatística, há 1479 casos de problemas pulmonares associados ao vape. 

Mas por que o vape é tão ruim assim?

De acordo com Franco Chies Martins, pneumologista do Hospital Assunção da Rede D’Or São Luiz, a inalação de um vapor quente proveniente da queima de substâncias tóxicas pode ser a fonte de diversos casos de insuficiências respiratórias. A diferença entre o cigarro comum e o eletrônico está na forma como o conteúdo é “queimado”: o primeiro é consumido em um processo de combustão de metais pesados e compostos solúveis; já o segundo funciona a partir do aquecimento do líquido por uma corrente elétrica que o transforma em vapor. 

Os líquidos usados nos cigarros eletrônicos possuem várias substâncias tóxicas, partículas ultrafinas e COV (Compostos Orgânicos Voláteis). Esses compostos são produtos químicos presentes em materiais sintéticos ou naturais, como o tolueno e o xileno, caracterizados por possuírem alta pressão de vapor e serem extremamente nocivos.

O cigarro de nicotina contém milhares de substâncias conhecidas e atestadas pela Anvisa. Em contrapartida, os compostos utilizados na fabricação dos líquidos para o cigarro eletrônico ainda não são completamente conhecidos, mas os COV, saborizantes, aromatizantes e o álcool – reconhecidos na composição – se condensam nos alvéolos pulmonares, causam inflamações e podem aumentar os danos ao trato pulmonar a curto prazo.

O médico explica que falta de ar, tosse, insuficiência respiratória e dor de cabeça são alguns dos sintomas mais comuns causados pelo uso dos cigarros eletrônicos. 

“Esses mesmos indícios são vistos em pessoas expostas a trabalhos perigosos em fábricas com alta incidência de ácidos e minas de carvão, por exemplo”. 

Qualquer tipo de cigarro é muito prejudicial à saúde

Uma questão que intriga os médicos é que nos exames feitos no pulmão, a doença se parece com uma pneumonia bacteriana ou viral, mas os resultados não apontam nenhuma infecção. E isso acontece não apenas com o vape.

Ainda que sejam muito prejudiciais, os cigarros eletrônico e o de nicotina não são considerados os piores. Segundo Franco Chies Martins, o narguilé é ainda mais perigoso, assim como o “natural” cigarro de palha que é altamente tóxico.

“O uso do narguilé por apenas uma hora equivale à queima de 100 cigarros de nicotina. A toxicidade de um cigarro de palha também é altíssima e equivale a de sete normais de nicotina. Isso se explica pela alta concentração de tabaco usado nos dois dispositivos e, principalmente, pela falta de um filtro para amenizar o trago no de palha”, explica.

A propaganda é alma do negócio

Franco avalia que outro fator agravante é o marketing que a indústria faz para a vontade das pessoas de experimentarem diversos desses artefatos. Com a entrada massiva do cigarro eletrônico no mercado americano, as empresas de tabaco têm investido alto para atrair a atenção do público jovem. 

Sabores, aromas e formatos descolados são algumas das apostas para vender cada vez mais e conquistar clientes ávidos por novidades, o que torna todo esse cenário uma crise séria de saúde pública. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), no Brasil, 80% dos fumantes começaram a fumar diariamente antes dos 19 anos de idade e 20% têm menos de 15 anos. 

Por mais que seja uma moda e pareça divertido, é preciso alertar a população, principalmente para o público jovem, dos riscos causados pelo fumo e das dificuldades de viver com problemas para respirar bem. Praticar esportes, dançar, nadar ou correr podem se tornar um fardo se os pulmões estiverem debilitados. 

Por |2019-10-22T16:28:15-02:0022/10/2019|