*Por Marta Mitsui Izo, professora de natação da BT Eldorado (SP)

Marta Mitsui Izo, professora da Bodytech, conta como foi realizar a travessia do Canal da Mancha em uma equipe com quatro atletas e ainda bater dois recordes mundiais. Confira:

“Assim que voltei ao Brasil, após a conquista do Canal da Mancha, pensei que ia sossegar. Mas não foi o que aconteceu. O ser humano é movido a desafios, certo? E logo procurei algo que poucos conseguiram fazer. Então, fiquei sabendo que também é permitido cruzar o Canal da Mancha em revezamento. Por que não? Dei um tempo para me restabelecer financeiramente, pois minha travessia foi por conta própria e com ajuda de alguns amigos. Patrocínio é muito difícil, principalmente em esporte amador. Até hoje me perguntam se valeu a pena, e a resposta é sim! Cada centavo!

No início de 2010, fui atrás do meu novo desafio, e duas amigas, Luciana Akissue e Giuliana Braga, me procuraram para saber sobre o Canal. Expliquei como funcionava e fiz uma proposta: cruzá-lo ida e volta revezando em quatro mulheres! Para minha alegria, elas toparam!

Não foi difícil convidar a quarta nadadora porque já sabíamos quem seria: Priscila Santos. Parece simples, mas não é. Tive sorte em já conhecê-las. Para a travessia, precisávamos confiar muito uma na outra, pois, se uma desistisse, a prova era cancelada. Não é permitido ter substitutos e nem alterar a ordem. Sabíamos que seríamos o primeiro quarteto feminino do Brasil –depois descobrimos que íamos ser o primeiro do mundo (entre homens e mulheres)– o normal são equipes com seis integrantes!

Montamos o projeto para ir em busca de patrocínio. Na época, outra amiga, Andrea, tinha uma grande empresa com os irmãos e a mãe e disse que ajudariam com alguma quantia e que era para enviar o projeto para ela mostrar à família (os sócios). Entregamos e, para felicidade de todas, a empresa quis bancar 100%. Acreditem se quiser: isso aconteceu em menos de uma semana!

canal da mancha

Então, era só treinar! O que achávamos que ia ser o mais difícil acabou não sendo, mas não achem que foi fácil treinar. O volume de treino foi maior que da outra vez. Foram praticamente 13 meses de preparação. Treinos em piscina, rios, represas e mares. Compromissos com o patrocinador. Tudo isso nos uniu muito.

Em junho de 2011, embarcamos rumo à Inglaterra. Normalmente, chega-se uma semana antes da data marcada para a travessia para fazer a adaptação de fuso horário e, principalmente, com a temperatura da água. Ainda bem, pois desta vez a água estava bem gelada, só 14ºC. Nunca havia nadado em uma temperatura assim. Confesso que é congelante! Na semana de adaptação, treinamos todos os dias duas vezes (manhã e tarde). Em nosso primeiro treino ficamos assustadas. Nadamos 20 minutos e saímos mudas! Pensei: “E agora? Será que conseguirei nadar uma hora nessa temperatura? Tá gelada”! Depois descobri que todas tiveram o mesmo pensamento.

Naquele mesmo dia, nadamos de tarde quase 50 minutos. Nem percebemos a temperatura, pois o mar estava tão agitado que nossa maior preocupação era mais em não se perder uma da outra. Depois daquele dia, nada mais nos incomodou. Ou melhor, quase nada. Dois dias antes de embarcar, fiquei doente, com uma tosse forte, garganta irritada e sem voz. Tive que entrar no antibiótico. Não conseguia me alimentar direito. A Pri teve que me aguentar tossindo horrores todas as noites.

equipe travessia

Antes de contar como foi a travessia, algumas informações:
– o barco contratado pode aceitar até cinco nadadores por janela, funcionando da seguinte maneira: o número 2 só nada depois do número 1 e no próximo dia ideal para a travessia
– o formato padrão do revezamento é de seis integrantes
– é obrigatória a troca a cada 1 hora
– na hora da troca, temos que emparelhar com a outra nadadora. A que estava nadando tem que sair rápido da água enquanto a outra fica parada. É preciso esperar a liberação do fiscal.

Éramos o número 2 e um amigo nosso, o Alfredo, era o 1, ou seja, só podíamos ir depois dele. Ele iria em 26 de junho de tarde, e a gente no dia seguinte aproximadamente às 17h.

Fomos levá-lo até o porto para embarcar e desejar boa prova. Na manhã seguinte, fui procurar notícias dele (eram umas 7h) e minha surpresa foi que ele havia desistido. Nadou por 4h e não aguentou a água gelada. O barqueiro já havia ligado algumas vezes para avisar que tinha chegado nossa vez, mas a pessoa que estava com o celular não falava inglês e não sabia quem era e me avisou. Fui chamar nosso técnico, Igor de Souza, que imediatamente retornou a ligação.

Tínhamos que estar no porto às 8h30! Nos aprontamos muito rápido, fomos pegas de surpresa. Os técnicos aprontaram os lanches e todos os outros apetrechos para a prova.

A semana inteira, na hora do café da manhã, era uma farra e, naquele dia, estava um silêncio que misturava nervosismo, ansiedade, medo, alegria e muitas coisas mais. Pegamos o táxi e fomos ao porto. Embarcamos, arrumamos as coisas e fomos em direção à Shakespeare Beach para a largada.

Estava um dia lindo, totalmente sem vento. A largada foi dada às 10h em ponto. A primeira a nadar foi a Giu (a ordem era Giu, Pri, Lu e eu). Havia muitos mosquitos e perguntei ao barqueiro por que tantos em pleno mar e ele me disse que era sinal de tempestade, mas que não era para me preocupar. Tudo correu muito bem e até tivemos visita de alguns golfinhos que acompanharam a Pri por um tempinho. Ela se assustou um pouco pois não sabia do que se tratava, mas depois se acalmou.

golfinhos

O Igor havia nos instruído a nadarmos bem tranquilas, que o objetivo era terminar. Com 6h20 de prova –a Lu estava na água–, percebi uma certa agitação dele com o outro técnico (Agnaldo) e os fiscais. Vieram falar com a gente que havia uma grande possibilidade de batermos o recorde do trecho Inglaterra-França em revezamento.

Começamos a sinalizar para a Lu que era para acelerar. Nadamos com muita vontade de atingir o que os técnicos haviam nos pedido! E deu certo!

O recorde anterior era 8h42, e fizemos 8h22! Quem chegou na França foi a Giu. Fez tanta força que nem conseguia respirar direito! Emoção total!

Hora de voltar, metade da prova já cumprida! Lembram-se da tempestade que comentei? Não nos atingiu! Ficou no litoral da França e não avançou para o meio do Canal!

Começou a anoitecer, colocamos ligthsticks e sinalizadores nos óculos para os técnicos, fiscais e barqueiro nos localizarem. Estava um breu. Só conseguíamos ver uma pequena luz do barco e os vultos das pessoas. Sinceramente, o escuro dá medo.

Após umas 4 horas na volta, os fiscais informaram que tínhamos que abandonar a prova, pois a correnteza estava levando a gente para fora da Inglaterra. Pensei: “Isso não está acontecendo! Batemos o recorde e agora temos que parar?” O Igor disse que não poderíamos parar, que era para colocar a gente nadando contra a corrente. O barqueiro e os fiscais disseram que ele era louco e que não íamos conseguir. Ele respondeu: “Treinei essas moças e sei muito bem do que são capazes!”. Os fiscais deram meia hora e, caso retrocedêssemos, eles parariam a prova. Foi bem na vez da Pri nadar. O que ela fez é de tirar o chapéu! Imaginem entrar na água a 13ºC, escuro, chorando, sem poder retroceder, sem saber se ia poder continuar… Não é para qualquer um! Ela conseguiu, e chegou a vez da Lu, que também conseguiu segurar e até avançar. Em seguida, foi minha vez, nadei o tempo todo orando e pedindo para que conseguíssemos, mais por elas do que por mim.

travessia

Conseguimos avançar e ficamos mais calmas. Quando achávamos que estava tudo tranquilo, houve outra agitação. A possibilidade de bater outro recorde! E começou a tensão de novo.

Como se isso não bastasse, apareceu outra dificuldade. A corrente estava levando a gente para a entrada do porto de Dover, na Inglaterra. A guarda costeira estava pedindo para sairmos de lá, pois era proibido. Até que o barqueiro conseguiu convencê-la, dizendo que estávamos prestes a bater o recorde. Nunca vi a Lu nadar tão rápido! Naquela hora começou a chover! Já estávamos chorando de felicidade e falamos que o céu também estava emocionado com a gente! Batemos mais um recorde –era de 19h04 e fizemos em 18h42!

Fomos o primeiro quarteto do mundo a completar o Canal da Mancha ida e volta! Recebemos os parabéns da guarda costeira (aquela que estava pedindo para sairmos de lá… rs) e liberaram a nossa entrada por onde barcos como o nosso não são permitidos.

Missão cumprida! E com gostinho de recorde –aliás, de dois recordes! Resultado não esperado, mas muito bem-vindo!

Esse projeto marcou demais, não só a mim, como a todos os integrantes. A equipe era formada por quatro nadadoras, dois técnicos e um escritor. Nos tornamos uma família! Pessoas que guardarei para sempre em meu coração, em minha memória, em minha vida! Fui muito abençoada em tê-los. O trabalho em equipe foi de suma importância para o sucesso deste projeto! Não só no dia da prova e, sim, desde o início. Foi um aprendizado grande que procuro aplicar em tudo em minha vida.

equipe

“Teamwork”

Sinceros agradecimentos aos técnicos Igor de Souza e Agnaldo Arsuffi, às atletas Luciana Akissue, Giuliana Braga e Priscila Santos e à família Marques (Dona Eli, Andrea, Alexandre e Renata), que acreditaram e investiram neste sonho!

“If you can dream it, you can do it” (Walt Disney)

Curiosidades:
– no trecho de volta da travessia, quando a Pri estava nadando, o barqueiro disse: “Golfinho de novo!”, levantei, olhei e não vi nada. A Lu viu e ficou na dela. Estava escurecendo, estávamos cansadas e nem demos muita atenção. Dois dias depois, jantando em Londres, o Agnaldo nos contou que não era um golfinho e, sim, um tubarão! Caraca! Ainda bem que não vi, pois não sei se entraria na água de novo! Creio que não
– o recorde geral em revezamento é estabelecido independente do número de atletas e há também por integrantes e sexo
– na madrugada nadamos com a água a 13ºC
– não é permitido o uso de neoprene (roupa de borracha)
– enquanto ficamos no barco, nossa alimentação era composta de lanches, isotônicos, gel, macarrão instantâneo, chá quente, mix de nuts, frutas, Coca-Cola, água e sucos
– toda vez que subíamos de volta ao barco, tirávamos o maiô molhado, colocávamos o seco e nos agasalhávamos. Mesmo assim, ficávamos quase uma hora tremendo de frio.
– afirmo que nadar em água gelada e passar frio emagrece! Experiência própria!
– o Alexandre (patrocinador) estava nos aguardando no hotel e confessou que, quando avisamos que havíamos batido o recorde na ida, ficou feliz mas queria que tivesse tido um pouco mais de emoção (confesso que realmente foi fácil). Acho que Deus ouviu as preces dele e mandou tudo na volta! Mas não precisava tanto, não é?
– conseguimos transmitir ao vivo, via internet, quando estávamos em solo inglês. Foi uma experiência única! O término da travessia foi vista por milhares de pessoas de diversos lugares do Brasil e do mundo! Parecia que estavam todos no barco. Eles conseguiam conversar com a gente através do chat. Muito emocionante!
– nosso amigo Alfredo retornou no ano seguinte e conseguiu completar a prova.”

*Marta Mitsui Izo dá aula de natação na Bodytech Eldorado (SP). Ela foi a 5ª mulher brasileira a atravessar o Canal da Mancha, que separa a Inglaterra da França, na Europa. Anos depois, voltou para fazer a travessia do Canal da Mancha em uma equipe com quatro atletas e bateu dois recordes mundiais: recorde do trecho Inglaterra-França em revezamento e recorde da travessia inteira – o anterior era de 19h04 e a equipe em que Marta estava fez em 18h42. Elas também formaram o primeiro quarteto do mundo a completar o Canal da Mancha ida e volta.