Do aleitamento materno à alimentação diária, todo cuidado com o que ingerimos é pouco. E por falar em ingestão, precisamos nos atentar ao que colocamos na boca na hora de comer. Escovar os dentes e passar fio dental são hábitos essenciais, mas, para manter a saúde bucal em dia, temos que cuidar do que comemos também.

A nutrição do dia a dia tem um papel fundamental nesse processo. Se o organismo não recebe componentes nutricionais suficientes, é muito provável que haja alteração em diferentes locais da boca. Segundo Cláudia Tavares, odontopediatra, ortodentista e diretora clínica da Promosaúde, essas variações bucais são o primeiro sinal de alerta do organismo para avisar que o corpo está carente de algum nutriente. 

O fato de um alimento ser mais difícil de ser removido das superfícies dentárias durante a higienização também pode ser prejudicial à higiene da boca. Não só o tipo de alimento é importante, como também a consistência dele e a frequência de ingestão. Cláudia ainda explica que existem alimentos “mocinhos” e “vilões” para a saúde bucal. 

“Alguns tipos de comida podem trazer benefícios para a saúde bucal, pois são considerados como “detergentes”. Eles atuam eliminando resíduos de outros alimentos que ficaram aderidos à superfície dental. Maçã, pêra, cenoura e laranja são alguns exemplos. Por outro lado, existem alimentos vilões. Os açúcares de uma maneira geral, principalmente a sacarose presente em doces, são capazes de provocar a queda do PH na cavidade bucal aumentando o risco de cáries e doença periodontal”.

A ortodentista também elenca exemplos de carências nutricionais que causam manifestações bucais. A falta de ferro, vitaminas A e B12, por exemplo, podem resultar em aftas, língua careca, feridas (candidíase bucal), queimação bucal, tendência a infecções oportunistas e até mesmo aumento do risco de câncer de boca. Já a escassez de vitamina C pode provocar sangramento gengival, retardo na cicatrização, mobilidade dentária, alteração do paladar, doenças oportunistas e periodontal.

Quando e como começar a cuidar dos primeiros dentinhos?

Engana-se quem acha que só é necessário cuidar da boca quando há dentes. A assepsia bucal deve começar logo na primeira infância antes mesmo dos conhecidos “dentes de leite” aparecerem. A gengiva precisa ser muito bem cuidada, pois as bactérias provenientes da alimentação se acumulam nessa região. De acordo com Cláudia, os cuidadores devem massagear as gengivas do bebê em movimentos circulares com o auxílio de água, um paninho macio, gaze ou uma escova suave – sem uso de creme dental – a partir do terceiro mês de vida da criança. 

Assim que os primeiros dentes começarem a surgir, a higienização bucal pode ser feita no banho ou após as principais refeições. Caso não seja possível, deixe esse momento para as escovações de manhã e à noite. Nessa fase, a preferência é de uma dedeira ou escova macia com pasta de dente própria para bebês na quantidade de um grão de arroz. A partir de um ano de idade, além de permanecer com esses cuidados, também é importante estimular a participação da criança de forma lúdica e motivacional. Dessa forma, ela ficará motivada a construir bons hábitos de higiene.

Já os adultos devem escolher quatro momentos do dia para fazer a higienização dos dentes. Cláudia indica que a escova deve ser macia para não machucar a gengiva e a cabeça do acessório deve ser arredondada para alcançar todos os cantos. E, para não esquecer do fio dental, a ortodontista lembra que ele deve ser usado diariamente antes de cada escovação para evitar o acúmulo de placa bacteriana e auxiliar na remoção de resíduos alimentares próximos à gengiva.

Do aleitamento materno à introdução alimentar, como garantir um bom nascimento dos primeiros dentes?

Aquele choro constante acompanhado de febre e enjoos por volta dos seis meses de vida são sinais característicos de um dentinho de leite querendo nascer. A gengiva da criança começa a coçar e isso provoca irritação na maioria dos pequenos. Para evitar esse tipo de incômodo, Cláudia recomenda que o bebê seja estimulado.

“Isso é importante para que o desenvolvimento do sistema mastigatório (face, músculos e dentes) tenha um crescimento adequado. Isso ajudará no processo de mudança do sorver para o mastigar no decorrer da inserção de novos alimentos”, conta Cláudia.

O acompanhamento de um/uma odontopediatra ou nutricionista especializado em introdução alimentar faz total diferença. Esses profissionais estão habilitados a auxiliar as famílias para evoluir a mastigação de forma segura e nutricional. O desenvolvimento da função de mastigar, quando incentivada de forma correta, permitirá que o corpo entenda que está na hora de crescer, se fortalecer e estimular o nascimento dos dentes.

Entenda como os adultos, principalmente os avós, influenciam na alimentação de crianças

Deixar de cuidar dos dentes de leite afeta o crescimento dos futuros dentes permanentes?

Por mais que a dentição ainda não seja fixa, os primeiros dentes (dentes decíduos) são similares aos permanentes. Eles não estão isentos de passar por complicações se a higiene bucal não for realizada da forma correta. Cláudia Tavares certifica que esses dentinhos de leite são essenciais para o nascimento dos seus sucessores. Dores de dente, cáries e abcessos podem aparecer em crianças que não mantêm a higiene bucal. Os dentes de leite são compostos por uma coroa clínica (esmalte, dentina e polpa) e uma porção de raiz, merecendo tanto cuidado quanto os permanentes.

Quando mantemos uma má higiene bucal, a quantidade de bactérias cariogênicas presentes na boca aumenta. Dessa forma, elas entram na corrente sanguínea e colonizam em locais que não conseguem se manter equilibradas. Isso pode gerar inflamações, infecções e até problemas mais sérios.

Beber bastante água é fundamental para as mucosas orais permanecerem hidratadas e evitar a halitose (mau hálito). A hidratação estimula as glândulas salivares e, consequentemente, a eliminação de resíduos do organismo, inclusive da boca.